Ao longo da vida nos ensinam o que é importante fazer, mas em geral sem
perguntar nossa opinião. E aí gera um dos grandes conflitos que podemos levar
por toda a vida: o dever e a realização.
“Os deveres primeiros, e depois a diversão”. De onde vem essa ânsia de
cumprir os deveres? A quem devemos cumprir os deveres? Quem inventou os
deveres? E ao fim de tudo... O que são os deveres?
A obrigação sai desde um ponto de frustração que a pessoa que a inventa
sente em si mesma. Basta ver o peso que a palavra carrega consigo.
Originalmente significa “ligação, elo”, e até aí é um fenômeno normal em toda a
natureza. Desde aí vemos que existem duas possibilidades: A criação do elo de
maneira natural, onde por alguma razão eu reconheço esta ligação e a vivo de maneira
tão espontânea que posso nem percebê-la como algo externo; ou a criação do elo
de maneira forçada, imposta por um terceiro sem que faça sentido algum para
mim.
Todos somos emissores quando somos pais, professores, ou quando
assumimos qualquer outro papel de ser referencia para alguém. Todos somos
receptores quando admiramos a uma pessoa e, biologicamente, a nosso pai e mãe,
principalmente quando crianças.
Uma das grandes fontes de aprendizagem do ser humano – e a única em
determinada fase da infância – é a imitação. Imitamos às vezes sem darmos
conta, e seguimos repetindo com um grande percentual de inconsciência. Com isso
fica claro que, quem aprendeu a formar elos na vida desde a imposição sem
sentido, forçará a criação de elos mediante a imposição sem sentido ao seu
receptor (e o sentido que têm para o emissor, neste caso, é simplesmente que
ele aprendeu assim).
Neste ponto é comum escutarmos justificativas baseados em uma “verdade
universal”, fruto da crença e da experiência de quem fala: “a vida é assim”, “o
mundo é assim”, “a sociedade é assim”, ou, em alguns casos mais autênticos –
mas igualmente inconscientes – “porque eu quero”, “porque eu sou assim”. Estas
verdades universais são os famosos “cala a boca e faz o que eu mando”, em
situações nas quais o emissor não considera o receptor digno de uma explicação
que faça sentido ao seu mundo e à sua experiência; ou simplesmente o emissor
realmente não sabe criar um sentido para a ordem que está imponendo.
E assim a maioria de nós passamos pela imposição de diversos “elos”
desconectados de sentido para o nosso momento de vida: os deveres de casa, o
não brincar, o não desenhar/cantar/dançar/escrever, o não fazer xixi em meio a
uma aula, a própria aula em si, etc. Um fator em comum é o não à
espontaneidade.
Ser espontâneo significa deixar o canal aberto entre suas sensações internas
e o mundo externo. Este canal permite um fluxo saudável da nossa natureza com a
natureza que interagimos, criando uma terceira natureza que, por sua vez, nos
renova, nos transforma e nos faz evoluir.
Quando o canal é aberto, o diálogo entre o que eu ofereço ao mundo e o
que o mundo já era independente de mim permite o meu crescimento pessoal, e uma
vida desde a autenticidade. O diálogo parte da minha essência.
Quando o canal é fechado, o diálogo ocorre partindo de uma criação
fictícia que fomos obrigados a fazer por uma questão de sobrevivência – algo
parecido àquela roupa sem cor e incômoda que te obrigam a usar nas festas da
família. Esta criação fictícia beira a superfície do seu corpo e te protege das
broncas, dos castigos, das caras feias de decepção, dos ataques de raiva, e um
montão de outras coisas.
Com o tempo você se acostuma com ela, sente-se protegido dentro dela,
até um ponto em que crê ferozmente ser esta criação... e se esquece da sua
essência.
Mas a natureza é sábia, e o inconsciente, mesmo às vezes parecendo que
não, está sempre ao nosso favor: sempre se esforça para que nos tornemos
conscientes do que está guardado ali. É o seu tio Fred gritando “moleque, você
esqueceu o seu gibi aqui em casa!”, quando você nem lembrava que tinha o Gibi.
Ser conscientes do que está guardado em nosso inconsciente pode
significar, basicamente, sabermos qual é a nossa essência. No entanto este
caminho é uma verdadeira jornada, uma grande busca já contada centenas de vezes
pelos contos de fadas.
Então o inconsciente vai trabalhar. Se você vive com esta criação
fictícia - e não com sua essência - , literalmente deu vida a um Frankstein.
Não por sua capa protetora ser um monstro (ela deve ser bem bonita na verdade),
mas porque conseguiu dar vida a algo sem vida. Se você vive sobre esta ficção,
certamente “sentirá falta de algo” com muita frequência, e tentará preencher
esta falta com alguma ou muitas das fontes de prazer imediato que a vida nos
oferece: comida, compras, substâncias alucinógenas/relaxantes, sexo, televisão,
exercícios físicos, excesso de trabalho, e muitas outras. No fundo no fundo
você sabe que isso não preenche a sua falta, mas dá uma boa anestesia
temporária.
Como o inconsciente é muito insistente, vendo que você não escuta o
sentimento da falta interior como deveria, ele vai arquitetar encontros. Sim,
encontros: com pessoas que fazem exatamente aquilo que você queria fazer e não
faz; com pessoas que sorriem sem motivos e não vivem estressadas; com pessoas
que têm aquele estilo de vida que você considerava utopia. Fatalmente alguém te
servirá como o famoso “espelho”, onde uma parte de você pode reagir com
palavras bem feias seguidas de um “não posso acreditar”.
O peito arde, a cabeça dói, a respiração diminui, a ansiedade aumenta, e
pode até chegar a vir tristeza em uma etapa mais avançada de interiorização.
Tudo isso porque existe uma grande bola de energia em seu interior, a sua
essência, que está pulsando, gritando, expandindo, querendo sair, querendo que
você reestabeleça o canal de diálogo com o mundo desde o seu verdadeiro Ser,
desde sua natureza, desde os seus sonhos, desejos e aspirações mais profundas,
exatamente como era antes de te ensinarem que os elos são formados sem sentido,
que o cumprimento de ordens artificiais são mais importantes que a sua natureza
e que você só será amado se seguir as regras.
Quando somos crianças não temos muita escolha, fazemos tudo o que seja
necessário para receber o amor de quem amamos; aceitamos todas as condições para
sobreviver e receber carinho.
Mas agora, por mais que doa, a realidade é diferente.
Só uma coisa pode fazer você conectar com a sua essência: autoestima.
Você precisa amar a si mesmo o suficiente para que o seu Amor te
preencha e seja a fonte de sua percepção ao mundo – e não as experiências
passadas.
Precisa dar-se conta de que a natureza é provedora e acolhedora, de que
sempre estarás protegido e que eres o seu próprio mestre.
Isto exige um grande trabalho de aceitação.
Aceitar que você é capaz, aceitar que você é amado, querido e aceitado
por ser exatamente quem você é, e nada mais.
De aí conhecerás a felicidade, a sensação de fluir com a Vida. Não dos
efeitos que chegarão até você, mas do centro de Luz que você irradiará para a
sua realidade.
Não existe essência melhor que a sua,
E não existe Verdade maior que a sua Realização.
Se você quer viver em um mundo feliz de pessoas realizadas, já sabe o
caminho.
Seguir o seu caminho está muito longe de ser egoísta, ao contrário: você
estará compartilhando o melhor que a vida tem a oferecer a cada ser humano,
porque somente uma Luz acendida é capaz de iluminar.